Tentarei regressar às águas que me esculpiam no nevoeiro, tentarei regressar à espera que me imprimia o olhar, tentarei regressar à centelha que reduzia o tempo ao ininterrupto soçobrar da luz, aos campos que desenhavam as casas na transparente claridade que abraçava o céu. É a fogueira que se entrevê pelo quarto, as janelas onde as faúlhas sopram a existência, o passado que circula pelos neurónios, os telhados que se abrem ao fluxo sanguíneo da quimera, a imaginação que estala a angústia. Por tudo isto e tudo o que me expande, tentarei regressar ao nevoeiro que me esculpia em água e luz, aos campos onde as mãos se confundiam, às nuvens que me vulcanizavam em pálpebras, ao oxigénio que me carbonizava o mundo.
Carlos Vinagre
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