Talvez mergulhar sem âncoras por este espaço adentro, mergulhar como se não houvesse amanhã através do ruído melancólico das águas, mergulhar até respirar uma límpida manhã de frescas luzes adiadas debaixo do aquário, como se um sonho engolisse as pálpebras e o azul levedasse a infância num longo suplício de oceano diante da imensidão dos dias e a morte aguardasse a tristeza...
Não sou este mundo, não sou nada disto. Confesso que perdi há anos a existência, confesso que perdi todas as formas que me configuravam nesta terra sem léxico, perdi todas as cinzas que me obscureciam o rosto e perante o orvalho deixei que as linhas do mundo fossem a minha vida, que a realidade soletrasse as minhas memórias e que o ciclo das estações me dispersasse nas silvestres fantasias do poema...
Carlos Vinagre
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