terça-feira, 1 de julho de 2025

nas praias infinitas

Há uma janela que é um reflexo de cristal, a luz é como uma agulha, cose os olhos, sedimenta o sangue, engole o mar. 

Nestes jardins de silêncio, o azul não tem comprimento, o suor mapeia as sereias, os ramos mergulham no sal. 

É pelo crepúsculo que as cinzas ruminam os figos no estendal do tempo, as línguas perdem-se, em vulcões, esgotados até ao abismo, 

a imaginação definha nas praias infinitas.

Carlos Vinagre

Diário: 01 de Julho de 2025

Estes anos foram anos de uma voraz aprendizagem, anos marcados pela constatação de que só se pode depender, principalmente, de nós próprios. Esperar que o Estado cumpra com as suas obrigações mais racionais é uma miragem, a sociedade e as pessoas estão cada vez mais egoístas e moldadas pelos seus interesses imediatos, são os critério dominantes nas relações sociais nos dias que correm nos espaços onde me movimento, na década passada os valores humanos não estavam tão dissolvidos... A tendência deverá seguir o curso do agravamento doentio... É como se o universo mental estivesse a ficar senil, contaminado por uma estranha doença, reflexo do envelhecimento social, das mutações nas referências, da crise nos valores, da emergência de um "admirável mundo tecnológico", o processo está a ser vertiginoso, estiola as consciências... Para mim, que cultivei a empatia ao longo da vida, a atenção às pessoas, às diferenças, a heterodoxia, os sentimentos e as ideias mais elementares de justiça social, nada disto é normal, tentam nos impor esta "nova normalidade" através das plataformas de comunicação, mas eu resisto com o pensamento e a humanidade dos meus sentimentos até à impiedade perante o abismo do egoísmo patológico, não é um mundo que se queira abraçar este que está a emergir diante dos nossos olhos...


Carlos Vinagre


Um regresso não regressivo

Na década passada. muitos de nós, por força do crescimento do vício de redes sociais como o Facebook, fomos abandonando a blogosfera, não sem um quê de estupidez, hoje as consequências estão à vista de todos, uma sociedade moldada pelo maniqueísmo binário, um esquema mental perigoso, responsável historicamente por milhões de mortes. Desejo, por isso, regressar ao exercício de escrita neste espaço, pois entendo que escrever é pensar. E nos dias que correm é urgente cultivar o pensamento, a Europa está a viver um tempo sombrio de regressão.


Carlos Vinagre

sábado, 27 de janeiro de 2018

silabas

descobre o crepúsculo
salgando as mãos de silêncio
nas grutas esconde os olhos
e as nuvens sufocam os mares

na enorme cidade de ti
não temas o assombro
que te rasga em pontes imaginárias
não fujas das montanhas
enlameadas de neve
que aquecem os teus sonhos
não te esqueças do coração
que te arrefece na boca
e as silabas cobrirão
as pupilas ao mundo

a anémona do teu rosto
adormece no ocaso

Carlos Vinagre

o sol que mendiga

anoitece nos braços
a luz que abisma

na centelha da terra
as feridas acorrentam
o caudal que escurece

anoitece nos braços
o sol que mendiga

Carlos Vinagre