A lassidão mergulha-me no céu; o vapor das cores podia ser o meu endereço, um local onde livremente oprimisse a dor com satisfação e a solidão permitisse um abrigo para a imaginação; o eco de uma paisagem arruinada, misteriosamente epidémica, conspurcada e poluída. Se pudesse deitar-me no mundo e operar uma difusão da consciência, transcendendo a caótica esquizofrenia das relações humanas - o músculo ilógico da tragédia - talvez encontrasse a Igreja oportuna para serenar a paixão e assim continuar a viver cretina e convictamente.
Todavia, esta ideia ficcional que vos apresento é a mais pura fantasia. O mundo continuará a ser um lugar inóspito, de sobrevivência e rapacidade, um enorme obituário onde cada um se vai excedendo e a mais racional das morais se engole nas suas contradições intestinais.
Por isso, é-nos dado a beber a mais intensa das verdades cromáticas da realidade e, com o menor escrúpulo sanguíneo, a oportunidade para que exerçamos uma ignorância que, por faseadas etapas, oculte provisoriamente o movimento que quotidianamente nos carcome num perfumado sorriso defronte do abismo onde se embrulha o guardanapo da loucura. Não nos esqueçamos que devemos viver despudoradamente a existência antes que esta nos viva e reviva tardiamente como um punhal que nos drena o oceano da nossa beleza pueril?
Carlos Vinagre
Sem comentários:
Enviar um comentário